Bela, recatada e do lar

Categorias: Desabafo Mães

Essa foi a imagem que a mídia vendeu da jovem Marcela Temer quando Dilma foi eleita pela primeira vez. Agora, admirada por muitos como a primeira dama. Doce e encantadora, que nos faz brilhar os olhos. Afinal quem não gostaria de estar no lugar dela? Sinceramente não tenho certeza de que este seria um lugar para estar. Até porque não é o lugar que ela escolheu e sim, o que ficaria mais bonito para a sociedade que vive um momento delicado de transição de governo.

A questão aqui não é falar da diferença de idade, até porque eu sou casada com um homem 15 anos mais velho do que eu e confesso que fazer parte de uma geração mais nova do que a dele, muitas vezes soa estranho, até por experiências vividas em épocas diferentes. Eu conheci meu marido por termos a mesma profissão, por frequentamos lugares iguais e por N outras coisas que não cabem neste post. Não consigo me imaginar tendo uma vida interessante com um senhor de 60 anos enquanto eu estava na flor da idade, ainda mais se minha mãe fosse a figura de incentivo desta relação. Ia no mínimo me soar estranho.

Com um vestido quase poético, Marcela Temer fala do projeto “Criança Feliz” apresenta-se como voluntária e em tom emotivo fala sobre infância e desenvolvimento como se isso fosse a prioridade do governo do seu marido, que faz justo o contrário. E as mulheres e mães se sentem empoderadas por esta imagem que finalmente as representa. Sim foi isso que li nos comentários ao publicar um texto no Facebook que retrata muito bem a imagem desta mulher. Será que devemos mesmo nos inspirar nela?

Não é preciso ser feminista ou machista para discordar com esse discurso ridículo que circulou na mídia esta semana. A questão não está no: bela, recatada e do lar e sim no estereótipo da mulher legal, decente, dedicada e boa mãe. A única bem vista aos olhos da sociedade.

Eu não sou feia, confesso que às vezes me acho até bonita, não uso roupas vulgares e me visto sobriamente quase sempre, então poderia ser chamada de recatada, com toda certeza e também, não trabalho fora de casa, minha profissão nos termos comuns é do lar. Para mim está tudo bem ser isso tudo ou só isso aí, mas não está tudo bem, quando só este modelo é visto com bons olhos pela sociedade. Não está tudo bem, se isso faz com que a mulher se sinta menor, infeliz ou reprimida dentro da sociedade machista em que vivemos. Não precisamos nós mulheres ser iguais aos homens, até porque isso é impossível, física, biológica e hormonalmente falando, além de tantas outras coisas que diferem o gênero masculino e feminino. Antes que me apedrejem, não estou dizendo que é certo ou errado a distinção de gênero ou não. Estou dizendo que somos diferentes e sempre seremos, o que não significa que somos melhores ou piores por sermos mulheres, o que não significa que não mereçamos respeito, valor e incentivo.

A coisa mais importante que temos na vida é a paz de espírito. Ela nos faz ficar bem onde estamos e se ela te empurra para um mega cargo, com mega salários e viagens 20 dias por mês que te deixam feliz, seja você esta mulher. Agora, se sair de casa todos os dias e bater cartão na porta de entrada e saída, receber um salário mediano, sentir-se escravizada e provedora do enriquecimento do topo da pirâmide, escolha ser outra coisa, mas esteja em paz!

Vivemos numa sociedade machista, onde não fomos educadas para empreender e quando temos filhos, ou nos submetemos aos julgamentos daquela empresa que não está preparada para ter uma mãe em determinado cargo, ou viramos empreendedoras como forma de garantir o mínimo de conforto para nossos filhos quando a renda do marido não paga todas as contas da casa. Vivemos num sistema capitalista que nos obriga a fazer escolhas que não nos fazem felizes. Estamos longe de sermos livres para ser o que quisermos, porque quando o calo aperta, é preciso abandonar os sonhos e encontrar um emprego qualquer que nos permita pagar água e luz. Não é fácil ficar em paz com nossas escolhas, até porque muitas vezes, nós não temos escolha!

A mídia nos mostra o quanto romantizamos a vida daqueles que admiramos. Quem aqui não ficou chocada com a separação do William Bonner e da Fátima Bernardes, do Brad Pitt e Angelina Jolie? É como se a idealização de casal perfeito e família feliz, só fosse possível por histórias como estas que foram vendidas na mídia. Quem aqui se sentiu mais confortável por ter a certeza de que o Brasil será melhor governado por um homem e que finalmente agora, temos uma figura que representa segurança e seriedade e de quebra, uma primeira dama de brilhar os olhos da sociedade?

Somos a primeira geração de mães que é valorizada como figura fundamental para o bom desenvolvimento de uma criança e de uma base familiar estruturada. Que privilégio o nosso poder ser vista como realmente somos, a pessoa mais importante durante anos da vida de uma criança que será o futuro do mundo em que vivemos.

Que a gente possa ser bela, recatada e do lar. Ser executiva, bem sucedida e viajada. Ser mãe, filha e amiga. Ser mulher, casada ou sozinha. Ser aquilo que nos dá paz, ser aquilo que nos faz respirar fundo e levantar da cama todas as manhãs. Que possamos estar onde nosso coração e nossa paz está. Seja bela ou não, recatada ou não, do lar ou não.

Se você acha a Marcela Temer inspiradora, procure conhecer melhor a senhora Ruth Cardoso, esposa falecida do ex presidente Fernando Henrique Cardoso. Certamente você terá muito mais inspiração nesta segunda mulher e talvez até, achar ridículo o papel que a primeira se presta a ser.

bela, recatada e do larA bela, recatada e do lar, usou um vestido de R$ 1.600,00 para seu discurso público emotivo em tom maternal. Esta bela, recatada e do lar, tem empregada, motorista e não faz a mínima ideia do que é viver contando moedas para pagar contas de luz, telefone ou comprar um remédio para o filho doente. Esta bela, recatada e do lar é uma figura planejada para ser vendida na mídia com garantia de boa aceitação.

A carta de Manuela D’Avila para Marcela Temer me representa.

2 comentários

  1. Avatar
    Carol disse: em 08.10.2016

    Eu nao acho que esse modelo de bela recarada e do lar seja o unico valorizado, pelo contrário, hj em dia se vc fala que eh do lar, normalmente te julgam, tipo coitadinha, fica em casa cuidando doa filhos. Hj em dia o modelo de mulher que esta em alta eh aquela que da tiro, porrada e bomba, que é ate denominada pensadora moderna. Que bom que ela chamou atenção por ser assim,

  2. Avatar
    Kristianne disse: em 08.10.2016

    Olha, sinceramente, o quer que a mídia deseja vender, já sabemos que não ser a vendido tão fácil assim. Basta ver que grande parte das pessoas rejeitou completamente esse ‘papel’ de Marcela. Mas há um outro fato importante: nada, mas nada que Marcela faça será bom o suficiente. E por um único motivo: ela é mulher de Temer. Isso basta. Nós mulheres estamos cada vez mais sendo as algozes de nós mesmas.

Deixe seu comentário