Sobre o medo do meu filho

Categorias: Comportamento Mães

Há mais ou menos 2 meses, recebi um bilhete da escola informando sobre a Festa na Roça que acontece todos os anos no fim de junho. Junto havia uma autorização para ensaio e apresentação. Ainda é muito recente em minha memória a festa do ano anterior em que o Pedro estava tão apavorado no palco que tremia e chorava sem parar. Eu imediatamente fui busca-lo e abraçá-lo para que se acalmasse.

Este ano foi um ano muito importante na vida do Pedro. Ele aprendeu a se comunicar, a brincar melhor com os amiguinhos, saiu da fralda, da mamadeira e largou a chupeta. Depois de tudo isso, eu tinha certeza de que ele tiraria de letra os ensaios e se apresentaria tranquilo mesmo que timidamente.

Não recebi na agenda o dia dos ensaios, mas eu sabia que ele vinha ensaiando porque hora ou outra ele dizia que precisava de um chapéu de cowboy e de uma bota. Esta semana fui leva-lo na escola, pois ele me disse que gostaria de ir de carro comigo em vez de ir de van. Eu não tinha nenhum compromisso e mesmo que tivesse, teria dado um jeito pois ele me pediu tão carinhosamente que seria cruel negar-lhe o pedido.

Quando cheguei na escola a professora estava na porta recebendo seus alunos e eu aproveitei para contar que o Pedro havia largado a chupeta e que a estória sobre ela era a do bebê coelho. Ela me disse que ele estava ótimo no desfralde, nas atividades, mas que não queria dançar de jeito nenhum. Ela precisou dançar com ele em todos os ensaios e ele sempre dizia a ela que não iria dançar na festa. 

Depois desta conversa, passei a perguntar mais dos ensaios, da dança e da festa, tudo o que ouvia era que ele não sabia dançar. Eu confesso que não dei muita atenção e por isso não fui mais a fundo. Todas as vezes que ele via o chapéu ficava feliz e falava da festa, mas repetia que não sabia dançar.

O dia da festa chegou e ele todo animado se vestiu, mas na hora de sair de casa disse que não queria ir. Expliquei que ele não precisava dançar, mas que poderia brincar com seus amigos. Ele sorrindo resolveu ir à festa.

Pedro chegou tímido, não se entrosou e ficou um tempão colado na gente. Muito tempo depois pediu para brincar com os amigos e lá foi ele. Enquanto ele brincava distraído eu ouvia uma das organizadoras chamar a turma do maternal. Fui busca-lo e expliquei que havia chegado a hora de dançar. Quando ele viu o palco virou e saiu correndo, segurei ele pelo braço e o acomodei no meu colo. Disse que ele não precisava dançar, mas que poderia ficar com a turminha dele e dar um beijo na professora. Fomos conversando até o lado do palco onde ele deveria ficar com os amiguinhos. Ele estava visivelmente desconfortável, mas decidiu sentar-se ao lado de uma amiguinha.

Eu fui para perto do palco com a nítida certeza de que não o veria lá, mas isso não era o mais importante. Eu queria que meu filho se sentisse seguro e tranquilo.

Assim que as cortinas se abriram, quem estava lá todo sorridente? MEU FILHO. Sim ele venceu a insegurança e foi, dançou, fez a coreografia, agradeceu e mandou beijos no fim da apresentação. Foi quando meu filho venceu o medo. Eu chorei, sorri, chorei de novo, me emocionei demais. Só quem já esteve no vale da sombra de um possível diagnóstico de autismo, viu seu filho não ouvir, não brincar com os amiguinhos e percebeu as inúmeras dificuldades de um filho em pleno desenvolvimento, pode imaginar a emoção que sentimos neste momento.

Fomos busca-lo com sorriso no rosto, lágrimas nos olhos e um abraço enorme. Reforçamos tudo de bom que havia acontecido e o beijamos muito. Ele estava feliz e visivelmente aliviado, ele havia conseguido vencer o medo. O resto da festa foi cheia de sorrisos, amigos e brincadeiras. Papai e eu passamos este tempo todo em risos e lágrimas ao lembrar do nosso filho dançando feliz.

Quando chegamos em casa, mostrei o vídeo da apresentação e mais uma vez falei o quanto eu estava feliz e orgulhosa dele. Ele timidamente pegou o celular da minha mão e disse: tá vendo mamãe, o Pedro não sabe balançar o pompom.

Essa frase me fez entender tudo. Pedro tem tremor essencial, uma síndrome hereditária que costuma atrapalhar a coordenação motora fina e como ele ainda não se definiu canhoto ou destro (acredito que seja um canhoto tentando ser destro rsrsrs) tudo que requer muita coordenação fica mais difícil para ele. Talvez não conseguir balançar o pompom tenha sido o motivo pelo qual não queria ensaiar e dançar na festa.

Eu expliquei para ele que sim ele sabia balançar o pompom, mesmo balançando diferente dos amigos. Ele sorriu e disse: mamãe eu sei mesmo balançar o pompom. E saiu correndo pela casa.

Fiquei por um bom tempo me perguntando, por quanto tempo ele se sentiu tão incapaz a ponto de não conseguir dançar com os amiguinhos (ele ama dançar e cantar), o quanto deve ter sofrido com isso e porque não conseguiu conversar sobre o assunto mesmo eu puxando conversa diariamente.

Fica para mim o aprendizado disso tudo e o desafio de estar ainda mais atenta aos seus dias e atividades. Orgulho é o que sinto pelo dia de hoje.

Pedro, sou muito feliz por ser sua mãe. Te amo meu garotinho.

4 comentários

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    Fernanda disse: em 26.06.2016

    Parabéns Gabi….acompanho todo o desenvolvimento dos teus pequenos vc é uma mai zona!
    A minha irmã mais velha tem tremor essencial é ela só descobriu que era isso com 29 anos…isso a 4 anos
    ..Desde então não sabiam dizer o que era!

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    Alessandra disse: em 26.06.2016

    Gabi, adorei seu texto! Realmente temos que estar atentas às inseguranças, medos e angústias de nossos filhos! Meu filho tem 2 anos e muitas vezes seus textos me dão uma “luz” sobre como agir. Uma vez mais, obrigada pelas suas palavras.

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    Katy disse: em 26.06.2016

    Minha filha tem 3 anos e meio e tem bastante dificuldade de se entrosar na escola, quando está perto de mim é muito falante e quando não estamos não fala uma palavra na escola ela também está toda animada com a festa junina mais não quer ensaiar a dança fala que quiz ficar sentada do Banco olhando. Uma pena queria muito ver ela participando mais vamos esperar o tempo dela. Quem sabe no próximo ano ela se sente a vontade pra dançar.

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      Gabriela Gama respondeu: em 27.06.2016

      Katy, talvez esta escola não seja adequada para ela. Já pensou nesta possibilidade?
      bjs

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