A mãe, a filha e a fome

Categorias: Depoimentos Mães

De semblante triste e corpo magro marcado pelo sofrimento e pela falta de comida, aquela mãe de aproximadamente 30 anos, saiu de casa com sua filha de 1 ano de vida e foi para o centro da cidade, ela tinha uma pequena mochila preta junto de si. Sentou-se no chão, aconchegou a sua filha no colo e ali ficou pedindo esmola aos que passavam.

Esse primeiro parágrafo já daria um livro, mas não dá para poetizar a fome, não é possível romantizar uma criança que na idade da minha filha, estava ali sentada, com uma caixinha de balas vazia, brincando timidamente no colo de sua mãe, enquanto as pessoas passavam como se elas fossem invisíveis. Menos para meu marido e eu.

Caminhávamos no centro de Joinville em busca de uma papelaria para comprar um envelope. Falávamos do Pedro e da Olivia que haviam ficado com minha mãe e do quanto éramos abençoados por termos filhos saudáveis. Acho que estávamos falando do nosso futuro a médio prazo, mudança de cidade e de carreira, quando nos deparamos com aquela mãe e aquela filha sentadas ali olhando para baixo, pedindo esmola com um semblante tão envergonhado quanto sua tristeza e sua fome.

Meu marido se aproximou e perguntou o que a pequena criança precisava e ela rapidamente respondeu que ela precisava de leite. Ele perguntou se havia algum tipo específico e ela respondeu que qualquer um que ele pudesse doar ajudaria. Ele pediu para que ela o aguardasse ali e antes de sairmos, perguntou se a menina tinha mamadeira. Ela timidamente respondeu que a esqueceu em casa (talvez a menina nem tivesse uma mamadeira).

Havia uma farmácia a poucos metros daquela mulher. Entramos, pegamos uma senha para sermos atendidos e enquanto aguardávamos nossa vez, eu olhava as prateleiras de produtos infantis. Eu havia pensado em levar água, leite, mamadeira e fraldas e assim que o atendente chamou nossa senha, foi um pouco mais do que isso que pedi. 2 latas de leite para crianças com 1 ano ou mais, 1 pacote de fraldas, 4 garrafas de água, 2 pacotes de lenço umedecido, 2 tubos de pomadas contra assaduras, 1 mamadeira, 1 sabonete e 1 shampoo. Pagamos a conta com um sorriso no rosto e de peito quase estufado percorremos aqueles poucos metros com 2 sacolas grandes nas mãos.

Meu marido abaixou-se, mostrou tudo o que tinha na sacola e perguntou o nome da criança. A mulher respondeu: Claudia. Bem, cumprimentamos novamente a Claudia que nos devolveu um sorriso enquanto sua mãe olhava agradecida. Acomodamos a sacola ao seu lado e ela disse: Deus os abençoe. Meu marido respondeu: Ele já nos abençoou e esperamos que Ele abençoe você também. Mais uma vez ela agradeceu.

Saímos meio que sem rumo e com lágrimas nos olhos. Aquela criança, com a idade da nossa filha, estava ali por horas sem nada para comer e aquela mãe, talvez tenha pego seus últimos trocados e tenha gasto numa passagem de ônibus rumo a uma calçada onde precisou deixar sua vergonha de lado e pedir ajuda sem saber se voltaria para casa com algo na mão ou não.

Na volta, passamos pela mesma calçada e aquela mãe tinha uma semblante aliviado, talvez por saber que por alguns dias, o leite da filha não lhe faltaria. Claudia, em pé sorria enquanto sua mamadeira cheia estava à sua espera.

fomeEsta é apenas uma das mães com fome que ajudamos sempre que cruzam nosso caminho. Meu marido que trabalha num bairro nobre de São Paulo, encontra mães e filhas como essa que encontramos em Joinville, quase que semanalmente e ele faz sempre a mesma coisa. Pergunta a idade e o que as crianças precisam. Nenhuma dessas mãe pede algo para si, elas pedem basicamente comida, fralda e leite. Assim de pouco em pouco, alegramos o dia de uma mãe e de uma (ou mais) criança.

Nos comovemos com as crianças do oriente médio que se perdem de seus pais, que morrem numa travessia de barco, que caminham dias e mais dias em busca de uma oportunidade de sobrevivência. Que bom que nos comovemos e que isso nos faça lembrar das nossas crianças aqui no Brasil, essas invisíveis nos colos de suas mães que sentam em um chão duro, deixam de lado sua dignidade e imploram por comida para seus filhos sem lembrar da sua própria fome. Que possamos ser abençoados a ponto de cruzar o caminho dessas mães, de encontrar uma farmácia ou mercado e alimentar uma criança com fome, alimentar o coração de uma mãe desesperada. Que possamos olhar para os nossos filhos, agradecidos por sua saúde, conforto e a mesa farta. Que possamos reconhecer o quanto somos abençoados e ter sempre o desejo de abençoar o próximo, de sentir compaixão, de ajudar com algo que lhe faça a diferença. Que com isso tenhamos menos mães e filhos com fome, menos crianças sendo maltratadas ou mortas por dormirem na rua ou numa rodoviária. Que essas pessoas vejam um pouquinho de Cristo através de nós.

Com coração agradecido àquela mãe e àquela menina chamada Claudia, encerro este post, com a esperança de que quem leia possa fazer o mesmo e que o bem se multiplique.

3 comentários

  1. Avatar
    Katyuscia disse: em 10.01.2016

    Gabriela, fiquei emocionada com seu post. Li enquanto a Alice, miha filha de 5 meses, mordia seu brinquedo novo comprado numa grande rede de loja infantil, por um valor que talvez alimentaria “mais uma de tantas Claudias”. Não me culpo por poder proporcionar isso, e muito mais, à ela.. mas seu texto me deixou com um nó na garganta e um sentimento de que posso, e devo, fazer mais por outro alguém.
    Apenas obrigada por abrir meus olhos.
    Muito obrigada

    1. Gabriela Gama respondeu: em 10.01.2016

      Katyuscia, desejo que você tenha a oportunidade de encontrar alguma Claudia por aí e possa abençoar o seu dia.

      beijo grande

  2. Eliane disse: em 01.06.2016

    Muito emocionante seu relato, li enquanto fazia meu filho dormir, chorei, admiro muito vcs pelo o coração tão generoso que teem. Deus so os abençoará mais. Que todos nós possamos fazer o mesmo! Bjs

Deixe seu comentário