O dia em que fiz as coisas no tempo do meu filho

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o tempo do meu filhoEra apenas uma caixinha de lâminas de barbear, um pacote de pão e uma manteiga.

No início da noite de um dia qualquer, saí para ir ao mercado comprar essas três coisas que faltavam em casa. Minha mãe que está nos ajudando neste dias, ficou com a Olivia e eu perguntei ao Pedro se ele gostaria de ir ao mercado comigo. Ele prontamente foi buscar sua sandália e feliz da vida me deu a mão para saírmos de casa.

Fomos conversando de casa até o mercado. Assim que entramos, eu rapidamente me dirigi até o corredor que pensei encontrar a lâmina de barbear, mas errei o local e dei uma pequena volta. No final do corredor havia uma gôndola imensa e cheia de brinquedos e por lá o Pedro quis ficar, óbvio. Fiquei pensando o quão trabalhoso seria tira-lo dali aos berros, no colo, implorando para que ele parasse de chorar.

Em fração de segundos a culpa tomou conta de mim. Aquele garotinho doce estava radiante descobrindo botões que piscavam e faziam barulho ao apertar. Eu tinha tempo, não tinha nenhum compromisso agendado. Poderia tranquilamente aguardar meu filho se divertir por mais alguns minutos.

Parei ao lado dele e comecei a conversar sobre o tal brinquedo, dizer que era muito bacana, mas que não havíamos programado comprar um presente para ele naquele dia. Ele na verdade sequer mencionou levar para casa e logo resolveu me seguir pelo mercado.

Enquanto ele corria de um lado para o outro no mercado quase vazio, eu procurava a tal lâmina. Peguei a dita cuja e fui atrás do meu filho. Ele resolveu fazer um percurso personalizado pelo corredores e me chamava para brincar junto. Passei pelo mercado até que ele parou em frente a uma prateleira lotada de balas e doces. Ele todo feliz veio me mostrar seu grande achado e me pediu para abrir o pote. Expliquei calmamente que não devíamos comer a bala, pois ela não era nossa e que poderíamos continuar brincando pelos corredores e assim fizemos.

Parei de contar o tempo e me dediquei totalmente a brincar com meu filho. Algumas pessoas passavam por nós e sorriam, cumprimentavam aquele garotinho alegre e sorridente que andava de um lado para o outro. Passando pelos corredores diversas vezes, encontramos o pacote de pão, eu já estava quase me esquecendo dele. Pedro encontrou alguns móveis e um sofá super acolhedor num dos corredores e decidiu brincar de entrar e sair no espaço entre as cadeiras empilhadas e o móvel ao lado. Neste momento voltei a pensar que provavelmente não sairíamos tão cedo de lá sem escândalos. Mesmo assim, resolvi esperar que ele decidisse sair dali.

Mais alguns minutos e cruzamos o corredor da manteiga. Peguei um pote meio correndo enquanto o Pedro tentava se esconder no próximo corredor. Fui logo atrás e lá foi ele novamente brincar entre a cadeira e o móvel. Decidi sentar no sofá e ficar observando meu pequeno conversar sozinho, olhar pro teto e à sua volta por diversas vezes. Passados tantos outros minutos, ele resolveu que era hora de ir embora.

Enquanto caminhávamos em direção ao caixa, ele decidiu desviar o caminho mais uma dúzia de vezes, até que perguntei se ele gostaria de me ajudar. Ele me deu a mão e caminhou ao meu lado. Chegamos ao caixa e ele gentilmente entregou aqueles três itens à caixa do mercado. assim que ele recebeu a nota fiscal, caminhou em direção à porta e me acompanhou até o carro.

A ida ao mercado poderia ter durado apenas 8 ou 10 minutos, mas durou 1 hora e 15 minutos. Durou o quanto o Pedro achou que deveria durar e não o que a correria do dia a dia nos faz pensar que é o ideal. Ficamos o tempo necessário para que ele satisfizesse sua curiosidade e descobrisse novas possibilidades.

Voltei para casa não apenas com três produtos comprados da minha pequena lista. Voltei para casa com um sorriso largo no rosto, por ter deixado meu filho fazer as coisas no tempo dele. Feliz por ter participado desta 1 hora e 15 minutos de novas descobertas na sua vida. Me emociono quando fecho os olhos e vejo o PEdro, cheio de curiosidade brincando como se não houvesse relógio no mundo.

A vida é um corre corre danado. fazemos praticamente tudo no automático e torcemos para que as horas não passem tão depressa para que cumprir todas as tarefas do dia, seja possível. Estamos sempre apressando nossos filhos para que façam tudo com rapidez, sem prestar atenção à sua volta, como se o mundo fosse acabar logo ali se perdermos o horário.

O mundo doido em que vivemos, não permite que tenhamos tantas horas de folga e descanso, mas nós podemos permitir que o pouco que temos, seja preenchido pelo doce sorriso do nosso filho no tempo dele.

Que possamos ter a sensibilidade, de observar e identificar às necessidades dos nossos filhos. Que possamos entender que o tempo deles é muito diferente do nosso. Aprender a respeitá-lo, também é uma forma de amor.

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