Internação Pediátrica através do SUS

Categorias: Desabafo

 

Nicolas – 3º dia de internação

Há alguns dias, escrevi um post indignado e emocionado sobre a falta de
assistência às pessoas que dependem de uma internação pelo SUS. Como já disse, vivemos num mundo desigual, onde cada um sobrevive como pode. Pela primeira vez tive vergonha de
ter um plano de saúde tão caro que cobre os melhores hospitais do país. Fico
pensando em como a babá do Pedro se sentiu ao ver toda a estrutura de um mega
hospital que ela sequer sonha o quanto custa. Tive o cuidado de entregar o
cheque dobradinho que já havia preenchido sem que ela visse e pedir a nota por
email pra ela não se sentir envergonhada ou dependente daquela situação. A
pediatra do Pedro, como sempre nos recebeu de braços abertos e tratou o Nicolas
com todo carinho que toda criança merece. Diante da gravidade do caso e da
impossibilidade de interna-lo naquele hospital, cercamos todas as
possibilidades possíveis e imagináveis. Ligamos pra todo mundo que conhecíamos
e que de uma forma ou de outra poderiam nos ajudar. Foi uma maratona de ligações
e pedidos de ajuda. Cada vez que penso nesse dia, agradeço a Deus por ter
amigos tão queridos e dispostos a ajudar.

Liguei pro meu marido e contei sobre o estado de saúde do Nicolas e pedi que ele
ficasse com o Pedro para que eu corresse atrás de alguns documentos para poder
fazer os exames. Claro que ele sem pestanejar, cuidou do Pedro, da casa, de mim
e dos gatos. Passei em casa, tomei um café da manhã, deixei o Nicolas lá e fui
pro ganha tempo tirar uma segunda via do cartão do SUS do pequeno. Saí de lá,
passei denovo na pediatra, peguei o pedido de internação feito por ela, passei
em casa, peguei o Nicolas e fui pro Hospital Municipal de Barueri, onde fui
gentilmente recebida por uma amiga médica que já estava nos esperando com todos
os exames pra fazer. Ela falou com a pediatra do hospital que se comprometeu a
avaliar o Nicolas e se necessário fosse, solicitar a internação. A pediatra do
hospital passou pra ver o pequeno e confirmou a necessidade da internação urgente.
Adorei a pediatra, super gentil, simpática e sem olhar o pedido da outra
médica, adotou a mesma conduta e receitou os mesmos medicamentos. UFA!

 

Entre a consulta no pronto atendimento e a internação, passaram-se apenas 50 minutos.
Alguns questionamentos e complicações na hora de assinar os papéis, já que o
Nicolas mora com a avó, mas a avó não tem a guarda oficial e mãe não estava
presente. Depois de muita conversa e uma atendente de bom coração, conseguimos
liberar a internação.

Fomos gentilmente conduzidos ao quarto na ala pediátrica, e com toda a simplicidade
de um hospital publico, fomos muito bem recebidos. No quarto haviam 2 leitos e
duas poltronas para acompanhantes. Claro que passei um tempo observando o
ambiente, as enfermeiras e o que mais tinha à minha volta. Da entrada até a
alta, Nicolas foi extremamente bem tratado. Fui lá sempre que pude e não tenho
motivos para reclamar. O que mais me impressionou em todas as vezes que fui lá,
foram os demais pacientes. No quarto tinha uma mãe, completamente
desequilibrada e irrequieta que tinha um bebê de 6 meses com tamanho e
desenvolvimento de apenas um mês. Ela ficava enfiando mamadeira de suco e leite
o tempo todo goela abaixo dizendo pra menina engordar e aproveitar a comida do
hospital já que em casa não havia leite pra ela. Senti tanta raiva naquele
momento que fui fazer um carinho no bebê no momento em que a doida foi andar
pra um lado e pro outro no corredor reclamando de tudo e de todos. Toda vez que
entrava no quarto sem respeito algum abria e fechava as portas com força,
batendo mesmo, sem se importar se estava incomodando ou não. Como eu não estava
ali de acompanhante, apenas de visita decidi não me meter pra não ficar pior do
que já estava. Também encontrei um menino de aproximadamente 7 anos com
problemas nos rins com dieta especial, o triste era ver os parentes do menino
rindo e festejando por terem engabelado os seguranças e trazidos consigo um
monte de guloseimas e sucos de caixinha cheios de conservantes e potássio. Tudo
o que um rim doente não precisa. Mas como fazer esse povo entender que não
havia nada de bom naquela atitude, muito pelo contrário, ninguém estava
pensando de verdade na saúde da criança. Além desses dois casos mais próximos,
tantos outros que me deixaram profundamente triste, por perceber a ignorância e
falta de informação dessas pessoas e também com muita raiva pela falta vontade
dessas pessoas em aprender algo novo, de ouvir uma informação, da enfermagem ou
de um médico.

Depois de passada a tempestade, me senti mais do que privilegiada por não ter esbarrado numa longa fila do SUS, não me sinto feliz em ter tido que mobilizar tantas pessoas para que essa  internação de algum jeito acontecesse, mas ao mesmo tempo me lembro que vivemos numa selva chamada Brasil. Um país onde pessoas morrem, tem fome e não tem ninguém a quem pedir socorro, mas que com todas essas dificuldades ainda conseguem sorrir e ter esperança de uma vida melhor, mesmo sem nenhuma perspectiva de que isso realmente possa acontecer.

Agradeço imensamente por todos que se preocuparam e ajudaram de alguma forma nessa
história com final feliz, espero poder continuar ajudando outras pessoas, além
de servir de exemplo e ser um incentivo a quem tiver a oportunidade de ajudar e
dispor de algum tempo ao próximo. Este dia ficará sempre na minha memória, em
algumas horas, pude experimentar o medo, o desespero, a dor, a teimosia, a
amizade, a esperança e a angústia por não saber se no final tudo ai acabar bem,
mas Deus como sempre me trouxe paz e discernimento para poder cuidar de tudo
que era preciso para que desse certo, colocou no meu caminho pessoas que não me
esquecerei jamais, porque sem elas, nada disso seria possível.

O mundo é um lugar cruel, injusto, feio e triste para muitas pessoas, mas também cheio de beleza, amor e ternura para outros tantos. Que estes, possam colorir e alegrar a vida daqueles que já perderam a fé e a esperança.

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