Relatos de uma internação pediátrica

Categorias: Cuidados/Saúde Filhos
internação pediátricaDepois de 15 dias de vai e vem ao pronto atendimento e de muitas recaídas, a médica pneumopediatra que está acompanhando o caso, decidiu internar o Pedro. Essa notícia nos deixou angustiados, mas também confiantes numa melhora mais rápida.
Saímos de casa rumo ao pronto atendimento, onde a pediatra já havia ligado e solicitado prioridade e internação, a chegada e entrada para primeira avaliação foi bem rápida, já o resto vou detalhar melhor a abaixo.
Não bastasse estar doente, cansado e estressado, precisou fazer mais uma bateria de exames, raio x, exames de sangue e alguns medicamentos que deixaram ele mais estressado ainda.
Fui chamada no setor de internação para providenciar a papelada e lá descobri que o Pedro iria para o isolamento, um quarto com pressão negativa. Durante este processo recebi a melhor ligação de todos os tempos, a Pediatra oficial do meu filho já havia sido avisada e estava acompanhando os exames remotamente, foi a primeira vez que me senti amparada diante deste turbilhão de notícias e dias difíceis.
Como tudo em hospital demora, passamos mais algumas horas trancados num box a espera de um quarto. Quando já estávamos quase confortáveis naquela situação, nos enviaram para o tão esperado cômodo.
Chegando no quarto tive uma surpresa extremamente desagradável, no lugar de um berço, tinha uma cama hospitalar comum. Perguntei para a enfermeira se este era o procedimento padrão, e ela prontamente me explicou que sim, pois os quartos com pressão negativa ficavam na ala adulto visto que era muito mais usado por idosos. Fiquei lá extremamente desconfortável com esta situação mas resolvi aguardar a chegada da Pneumopediatra Dra Marina Buarque a qual dedicarei um post inteiro e vocês vão entender o porque.
15 minutos depois de estarmos devidamente acomodados neste quarto impróprio para um bebê, me liga a nutricionista, extremamente solícita perguntando os horários e os alimentos que o Pedro consumia, detalhei tudo com muita cautela e ainda pedi para ela repetir tudo que eu disse. Quando desliguei o telefone, pensei comigo, estou no paraíso, uma coisa a menos pra me preocupar.
A comidinha que deveria chegar as 18h, chegou as 19h e 20m, o suco que deveria vir junto não veio. Bem estávamos com tanta fome que com suco ou sem suco, lá fui eu tentar dar a papinha para o Pedro, ele estava tentando ficar em pé na cama, claro que isso não ia acabar bem. Pedro quando está doente, só quer saber de mamadeira, seja de suco, de leite ou de leite com fruta. Quando ele viu a papinha começou a empurrar com a mão e caiu da cama. Foi ele, a papinha e eu pro chão, segundos de pânico! Toquei aquela campainha de emergência e ninguém veio nos socorrer, mais minutos de pânico, cheios de comida pela roupa e o Pedro que não parava de chorar. Saí toda bagunçada com o Pedro no colo pelo corredor pedindo ajuda, depois de muito gritar apareceu alguém. Contei o que tinha acontecido e exigi que tomassem providencias além de providenciarem um berço. Logo veio um médico examina-lo, apesar do susto nada grave havia acontecido. Ele ligou pra médica responsável que pediu imediatamente a transferencia dele para a ala pediátrica, como já deveria ter sido feito desde o início. Isso tudo aconteceu por volta de 19h e 30m onde eu já havia pedido pela segunda vez a comida do acompanhante, que também deveria ter chegado às 18h.
Pedro adormeceu em meus braços e ali fiquei por mais 2 horas e meia, aguardando comida, uma enfermeira ou alguém pelo menos pra trocar o lençol da cama que também estava e sujo para acomodar meu filho ali. Depois de muito chamar, alguém apareceu prometendo um retorno que estou aguardando até agora. Quase 22h a Dra Marina chegou, viu aquela situação e foi logo tratar de acelerar as coisas. Ainda bem que ela estava por lá, porque nem ajuda para levar as bolsas do Pedro eu recebi, ela mesmo carregou tudo nos braços.Chegamos no novo quarto, também com isolamento respiratório e um berço no meio dele, UFA! Logo chegou o papai para nos ajudar a passar este perrengue com mais tranquilidade. Já eram quase 23h e nada da minha comida, agora que mudamos de quarto, com certeza esqueceram de vez de mim. Liga daqui, liga dali, reclama um pouco e finalmente consegui jantar aquela comida bonita e totalmente sem gosto quase 01h da madrugada.

No quarto tínhamos um sofá cama e uma poltrona reclinável e com apoio para os pés, passamos a madrugada revezando entre sofá e poltrona pra ver se conseguíamos descansar um pouco. Para nossa alegria o Pedro dormiu a noite inteira e acordou visivelmente melhor. Tomei um bom café da manhã, graças a Deus o pão francês do hospital era bom. Fui em casa para poder tomar um banho decente, pegar umas roupas e dar notícias do Pedro pra a babá que já estava pra lá de preocupada. Mal cheguei em casa, recebo uma ligação do papai perguntando se o almoço do Pedro não deveria ter chego. Eram 13h e nada do almoço dele chegar. A saga da comida continuou até o último dia. Na sexta tivemos almoço atrasado, mamadeira da tarde atrasada e leite gelado para um bebê gripado. Tentei de todas as formas explicar que mamadeira de bebe é feita de água mineral e pó, basta misturar e trazer pra ele beber. Tudo isso seria desnecessário se eles me permitissem fazer a mamadeira no quarto mesmo. Eu tinha o leite, só precisava amornar a água visto que o Pedro prefere mamadeira mais morninha.  Mas toda vez que pedia a tal água morna ela nunca chegava. Tivemos alta e até hoje acho que a menina da copa não aprendeu a fazer a tal mamadeira. Detalhe: ela trabalha na copa da ala pediátrica!

No meio da tarde os mesmo problemas de comida para o Pedro e nenhuma atenção satisfatória sobre o caso. Resolvi sair gritando no meio do corredor até que um médico resolveu ajudar, conseguiu fazer a mamadeira chegar na dose certa em menos de uma hora.

A melhor notícia do dia veio quando a médica avisou que ele teria alta na manhã seguinte, finalmente estaríamos livre da comida fria e sem graça, das mamadeiras geladas ou pegando fogo, do almoço e janta atrasados e falta de respostas às nossas solicitações. Fiquei sozinha com o Pedro nesta noite, assim papai descansaria um pouco e terminaria alguns dos inúmeros trabalhos da faculdade que deixou de entregar. A madrugada foi regada a vários pedidos para não acordar o pequeno para fazer inalação, já que ele estava ótimo e dormindo a sono solto. Acho que elas também não entenderam o que eu quis dizer, e por isso tentaram acorda-lo por 6 vezes.

Sábado de manhã, hora mais esperada do ano, Dra Marina chegou, examinou o Pedro e nos liberou para ir pra casa. Recebi os documentos da alta enquanto tentava conseguir uma mamadeira de leite já que ele estava chorando de fome denovo. Depois de muito implorar, chegou a tal mamadeira. Passo 2, pedir pro papai vir nos buscar, ao mesmo tempo pedir ajuda para alguém descer as bolsas do Pedro e minha mala. Papai chegou de Barueri, antes de alguém levantar da cadeira e me ajudar com as tais bolsas e malas. Saímos do hospital sem ninguém verificar nossa saída ou oferecer ajuda. Nunca imaginei me sentir tão feliz e aliviada por me livrar de um transtorno deste tipo.

Disso tudo, aprendi que não importa o hospital em que você está, tudo é demorado, burocrático e difícil. Nem todo mundo está disposto a fazer de um ambiente inóspito algo mais agradável. Por mais que você invista um tempo abrindo diversos chamados no SAC e que venha alguém extremamente solícito para te ouvir e dizer que não é uma situação rotineira, nada muda o seu humor quando seu filho grita de fome e ninguém consegue fazer uma mamadeira em menos de uma hora sem chegar com ela no quarto numa temperatura aceitável. Pedidos de desculpas não resolvem os transtornos causados. Erros graves podem ter consequências seríssimas, como a queda do Pedro da cama inadequada para a idade dele, entre tantas outras coisas.

Sempre que me lembro desses dias, fico pensando que se ouvisse isso tudo, talvez achasse a estória um tanto exagerada para apenas 3 dias de internação. Também penso que se no melhor hospital de São Paulo temos este tipo de situação, como será o atendimento nas demais redes hospitalares? Como será o tratamento no SUS?

Espero não precisar mais internar o Pedro pelos próximos anos, ou melhor, espero que ninguém mais precise passar pela mesma situação que passamos.

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