Meu filho merece um bom calçado

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Entenda porque eu acredito que meu filho merece um bom calçado.

Estamos sempre em busca do melhor. A melhor comida, o melhor método, melhor calçado e muitas vezes, nos deparamos com o que mais se consome, e confundimos com o melhor.

Então, sem entrar em questões mais profundas a respeito das escolhas, gostaria de me ater ao calçado. Mais especificamente, ao calçado do meu filho.

Me lembro, de ainda grávida, ter tido para o ele o universo de 18 pares de sapatinhos daquele tamanho que se usa antes de andar. Hoje, acho graça quando vejo as fotos. Mal sabia eu, que alguns daqueles sapatos, ele usaria sequer uma vez.

As crianças estão em constante movimento e crescimento corporal. Esse movimento colabora sempre para a manutenção da estrutura mecânica do corpo. Quem de nós já não comprou um sapato e passou para frente novinho, muitas vezes sem nunca ter sido usado? Justamente por esse motivo. As crianças têm hormônios agindo nesse sentindo, juntamente com outros fatores como boa nutrição, prática de esportes, ambiente acolhedor, herança genética, repouso e sono adequados, os quais vão colaborando para o seu crescimento.

A locomoção é uma característica do ser vivo que está sempre se adaptando a ela. Então, por volta dos 8 meses, uma criança já é capaz de se locomover através do gatinho, utilizando 4 apoios, e  entre 12 e 18 meses, fica em pé e troca os passinhos, 2 apoios.

Então, a marcha humana tem sempre a fase de apoio e a fase de balanço. A fase de apoio é a fase da marcha em que sustentamos o corpo e a fase de balanço tem por característica o levantar do pé do solo, avançando o pé no espaço e o preparando para o próximo apoio; seguindo sempre um padrão básico, porém, individual e pessoal, que manifesta muitas vezes as compensações que o corpo precisou adquirir ao longo do tempo.

A marcha da criança de 1 a 3 anos de idade é sempre acelerada, sem muita coordenação. À medida que a criança vai crescendo, e com a melhora do equilíbrio e da musculatura do pé, a marcha vai se tornando mais elaborada e mais próxima da ideal da fase adulta.

E é aqui que nós devemos ter o maior cuidado na escolha do calçado infantil. O calçado não deve “atrapalhar” o bom desenvolvimento mecânico do corpo da criança, e nem interferir nele.

Leia sobre pé chato e quando devemos nos preocupar.

A “The American Orthopedic Foot and Ankle Society” dá algumas dicas quanto ao calçado infantil ( apud “Lesões nos Esportes”. Cohen e Abdala. Liv. e Ed Revinter, RJ, 2003):

  • Sempre medir os dois pés, a maioria das crianças tem pés direito e esquerdo de tamanhos diferentes.
  • A criança deve sentir conforto assim que colocar o calçado, e este não deve esperar ser “amaciado”.
  • A maioria das crianças não desenvolve completamente o arco plantar até a pré-adolescência e não são necessários ou úteis calçados para ajudar no desenvolvimento do arco.
  • Crianças devem usar sapatos no formato de seus pés e que permitam o livre movimento de seus dedos.
  • Deve haver o espaço de um dedo entre o maior dedo do pé e a ponta do calçado.
  • O calcanhar deve encaixar-se bem no contraforte do calçado, não permitindo que o pé deslize dentro do mesmo.
  • A sola do calçado deve ser capaz de proteger o pé de lesões e oferecer amortecimento sem que tenha tamanho exagerado.
  • A cobertura do calçado deve ser feita de um material que permita que o pé “respire”.

Vivemos num tempo regido pela novidade em consumo máximo e acelerado. E dois, dos últimos lançamentos da moda infantil, muito me preocupa. São eles: o saltinho da princesa, e o tênis de rodinha. Os dois tem em comum a rigidez no solado, que é uma característica que impede o movimento adequado de flexão do pé durante a marcha.

Não vou levar em conta aqui o risco de queda. Apenas da marcha adequada ao bom desenvolvimento do corpo.

O saltinho da princesa desloca o corpo da menina pra frente, fazendo com que altere totalmente seu equilíbrio corporal. Este deslocamento faz com que a menina alargue mais a base (afasta mais uma perna da outra) para se manter em equilíbrio e não consiga elevar a coxa dobrando o joelho, forçando a mesma a rodar o quadril para conseguir andar. Já o tênis de rodinha, tem o solado rígido (para comportar a rodinha), o que, mais uma vez, não permite o movimento plantar adequado. E enquanto a criança está na fase de “pegar velocidade” ou de marcha comum (sem usar a rodinha), precisa andar com a ponta do pé. Esta posição também desloca o eixo de gravidade do corpo para frente, sendo ainda mais grave, pois a criança está sempre correndo para pegar velocidade desejada e descansar na rodinha.

As consequências do deslocamento do eixo de gravidade com movimento são: dores na coluna, rigidez nos movimentos dos ombros e quadris, dores tensionais, dores de cabeça, lesões em joelhos e tornozelos, pequenas inflamações musculares, tendíneas e articulares, entre outras.

Então, quando fui abordada pelo meu filho de 8 anos com a pergunta: e eu, não mereço um tênis de rodinha que todo mundo tem?

Pensei: claro que ele não merece. Não merece dores e lesões das quais eu não sou ignorante a respeito. Expliquei, expliquei e ainda explico. Tudo bem se ele não entender. Porque eu sei que ele não merece mesmo. Ele merece no mínimo, um bom calçado.

Renata Pereira Soares de Oliveira é fisioterapeuta, formada pela Universidade Católica Dom Bosco em Campo Grande/MS. Especialista em ortopedia – aparelho locomotor – pela Escola Paulista de Medicina, em Terapia Manual, reconhecida pelo Manual Conceps Institute na Austrália e em Pilates Clínico internacional pelo The Australian Physiotherapy and Pilates Institute – APPI, da Inglaterra. É membro da equipe multidisciplinar de dor pediátrica da Escola Paulista de Medicina e voluntária na ONG ACREDITE – Amigos da criança com reumatismo.

Renata atende em seu consultório na cidade de Barueri (Alphaville) e é mãe do Theo, de 8 anos.

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