Sobre a perda auditiva do meu filho

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Embora o Pedro tenha nascido de 37 semanas, não atribuo ao seu nascimento quase prematuro, os problemas de ouvido que ele enfrentou logo nos 2 primeiros anos de vida.

Sua primeira otite aconteceu depois de uma bronquiolite que o deixou bastante debilitado. Embora seja comum a doença evoluir para problemas de pulmão ou ouvido, jamais imaginei que seria apenas o começo de uma longa jornada para que meu filho voltasse a ouvir.

Eu acredito que cada criança tem seu tempo, já falei disso aqui quando mencionei o desfralde, a saída da mamadeira e o fim da chupeta. Respeitei o tempo do Pedro em tudo e continuo fazendo o mesmo com ele e com a Olivia.

Pedro sempre foi do tipo tranquilo pra tudo. Demorou para sentar, engatinhou com quase 1 ano e andou com 1 ano e dois meses. Sim eu ouvi muitas opiniões sobre isso. Conseguem imaginar como foi para minha cabeça ignorar os comentários sarcásticos e maldosos sobre o desfralde? Bem, o Pedro saiu da fralda com 3 anos e 5 meses. Fui criticada por deixá-lo em casa até os dois anos de idade, além das tantas teorias e palpites que sugeriam que a demora da fala e seu desenvolvimento slow motion devia-se à falta de socialização.

sobre a perda auditiva do meu filho

O tempo da escola chegou, Pedro estava preparado para passar horas longe de casa e aprender brincando com seus novos amigos. Entrou na escola falando mamãe e não. Duas únicas palavras faladas por ele e tantos outros amiguinhos que fomos conhecendo.

As primeiras semanas foram tranquilas e os meses seguintes bastante calmos. Nada mudava no seu desenvolvimento de fala. Parecia que ele realmente não estava aprendendo a falar, mesmo com tantos estímulos das professoras e da convivência com os amiguinhos.

Na primeira reunião de pais, recebi o boletim com um breve relatório: Pedro é um menino muito tranquilo e bonzinho. Faz suas atividades com satisfação e repete as ações feitas pelos amiguinhos. Adora observar as atividades e geralmente brinca sozinho.

Depois de observar mais meu filho e ler algumas vezes o relatório, a sombra do autismo chegou e me tirou o sono. Dividi isso com a pediatra que o acompanha e ela concordou que havia algo errado, mas que ele não parecia estar dentro do espectro.

No meio disso tudo, Pedro quebrou o nariz e pela primeira vez o levamos ao otorrino, Dr Raul Zanini que acompanha nossa família há muito tempo. Ele achou que estava tudo meio entupido, mas como havia um trauma grande, precisaríamos aguardar mais um pouquinho.

Dias depois, Pedro teve mais uma otite (ele já havia tido várias), que foi tratada e que se resolveu parcialmente, mas teve outras duas na sequência. Foram 3 num período de 70 dias. A pediatra me disse que precisaríamos a colaboração de um otorrino, já que as infecções tornaram-se frequentes e os antibióticos habituais não resolviam a questão. Do consultório mesmo, ligamos para o otorrino e mesmo medicado, marcamos uma consulta para avaliação.

Dois dias depois estávamos lá, eu, Pedro e o otorrino. Dúvidas, perguntas e o Pedro dentro do seu mundinho silencioso, brincava sem se incomodar com nosso diálogo.

Assim que o médico examinou o Pedro, explicou que ele estava com otite média secretora. Hoje, eu tenho certeza de que é a pior otite que tem pois ela não dói, não dá febre, mas que impede a boa audição, já que o ouvido acumula líquido (catarro) atrás do tímpano.

Pedro foi medicado para esta otite e fez dois exames super importantes: RX de cavum que verifica a adenóide. Só para explicar: o ouvido só entope por algum tipo de obstrução interna e geralmente a adenóide é a vilã de história. Também fizemos a impedanciometria que serve para medir a vibração da membrana timpânica e dizer se há algo atrás desta membrana. Um dos ouvidos respondeu com eficácia de 50% e outro com 80%, não tive nenhuma dúvida de que ele realmente não falava porque não ouvia.

Confesso que senti um certo alívio, pois este problema silencioso e sério, excluía mesmo que psicologicamente, a possibilidade de autismo.

Adenóide aumentada, otites de repetição e perda auditiva = cirurgia para aspiração da secreção, retirada da adenóide e colocação de tubinhos de ventilação. Essa era a garantia de sossego e de melhora na qualidade auditiva do Pedro.

Não precisamos de muito tempo para perceber o quanto a cirurgia foi um divisor de águas na vida dele. Ainda no quarto do hospital o volume do iPad e da TV passaram de muito alto para quase baixo.

Que alegria perceber a felicidade do nosso garotinho ao ouvir e finalmente repetir nossas palavras, cantar e formar frases.

O próprio ambiente era um super estímulo para ele, tudo à sua volta havia ganho um novo significado e o deixamos livre para aprender o quanto pudesse. O começo da fala compreensível não foi suficiente para descansarmos, por isso, depois de uns meses procuramos uma clínica multidisciplinar que o avaliou (para mim, de maneira grotescamente errada) e nos direcionou a um tratamento. Decidimos seguir uma linha mais lúdica de tratamento com uma fono que ele gosta muito e também com uma psicomotricista que trabalha corpo e movimento que também foram prejudicados pelo atraso na fala. Sobre essa busca, fiz um post que você pode ler aqui.

O que eu aprendi com isso tudo?

– Que continuo acreditando no tempo de cada criança, que ela se desenvolverá de forma segura se for respeitada, mas que existem alguns prazos para isso acontecer.

– O pediatra é nosso melhor companheiro nos primeiros anos de vida dos nossos filhos, ele precisa estar atento ao seu desenvolvimento e se necessário for, indicar um especialista.

– Não confunda intuição de mãe e pai com palpites alheios e exemplos esdrúxulos do quanto a filha da vizinha é mais desenvolvida, mais falante e mais “crescida”. A gente descobre ao longo da vida, que ser criança é muito bom.

– Bons médicos são fundamentais nesta caminhada, sem eles tudo seria em vão. Infelizmente temos poucos à disposição.

– Que embora a gente ame nosso filho. Imaginar que ele poderá ser descriminado, excluído ou maltratado por ter alguma deficiência, dói a alma.

– Muitos amigos acharão a gente neurótica, muita gente achará que é falta do que fazer. Alguns outros poucos, estarão incansavelmente ao nosso lado, e isso vale muito mais do que mil 20 amigos juntos.

É importante lembrar, que toda criança tem otite e amigdalite, pelo menos até os 4 anos de idade, nem todas causam algum prejuízo no desenvolvimento delas. Mas deve-se considerar uma consulta com um especialista, neste caso otorrinolaringologista, quando o problema for recorrente e difícil de ser tratado.

Para entenderem melhor sobre tudo, o primeiro vídeo foi feito alguns dias antes da cirurgia do Pedro e o segundo, poucos dias depois.

10 comentários

  1. Mariana disse: em 05.07.2016

    Oi! Com qual frequencia o Pedro faz fono e terapia? O meu faz fono uma vez por semana, sessao de meia hora e me parece tão pouco…

    1. Gabriela Gama respondeu: em 06.07.2016

      Mariana, via de regra ele faz 1x na semana por 1 hora. Como é pequeno, precisa de um tempo até entrar de fato na terapia. Achamos que 2x na semana ficaria cansativo pra ele, mas as vezes dobramos a sessão. Já fizemos 1 hora e meia, já fizemos sessão de 2 horas e já fizemos sessões de 1h 2x na semana.
      Acho que meia hora é nada para uma criança pequena mesmo, quando eles pegam o jeito, a sessão já acabou.

  2. Carolina disse: em 14.07.2016

    Oi Gabriela muito interessante sua postagem. Também tenho um filho que tem atraso na fala, ele não teve muita otite, que a gente saiba, mas ao fazer exames foi verificado que o tambor de um dos ouvidos nem vibrava de tanta secreção. Ele também fez a cirurgia, na época também fiquei preocupada sobre autismo, pois ele não falava nada, ficava frustrado, irritado e chorava muito. Ele faz fonoterapia a 11 meses e terapia ocupacional , estamos evoluindo…. Também sou mãe de uma menina de 9 meses e me identifiquei com a sua história. Abraços

    1. Gabriela Gama respondeu: em 14.07.2016

      Carolina, que bom que puderam identificar e resolver o problema. Aqui passamos pela mesma situação com a pequena Olivia que operou o ouvido aos 9 meses de vida. Espero que sua pequena não passe por isso, mas acho que vale o alerta para exames de audição nela por conta do histórico do irmão.
      Aqui fazemos fono e tbm um trabalho comportamental com uma psicomotricista que vem trabalhando muito a questão do choro, socialização, frustração e tem nos orientado demais sobre como conduzir este começo. Beijos e fique a vontade por aqui!

  3. Maíra disse: em 09.08.2016

    Oi, Gabriela!
    Meu filho colocou tubinhos nos ouvidos, tirou adenóide e amídalas aos 2 anos. As otites sumiram, graças a Deus, mas a dicção evoluiu devagar e na escola foram vários momentos difíceis. Hoje ele tem 6 anos, há uns 3 meses, a fono pediu alguns exames mais detalhados e descobrimos que ele tem um Distúrbio do Processamento Auditivo Central em grau leve. Há grande chance de que seja consequência das inúmeras otites que ele teve antes de fazer a cirurgia. Ele faz fono 1/2 hora, 1x/semana, o que é pouco, mas complementamos em casa com exercícios que ela nos passa pra fazer com ele e tem ajudado muito.
    Sempre acreditei que ele ia se desenvolver no tempo dele e hoje tenho cada vez mais certeza disso. Continuo buscando ajuda de quem pode de fato ajudar no desenvolvimento dele e fugindo de quem só tem críticas vazias e não entende o que a gente passa.
    Obrigada por compartilhar sua experiência! Bjão!

    1. Gabriela Gama respondeu: em 09.08.2016

      Entender as dificuldades da criança já é um bom começo e ter gente que ajuda é fundamental. Disturbio de PAC às vezes está associado e às vezes não, de qualquer forma é bacana continuar a terapia para que possa se desenvolver melhor e com mais qualidade.

  4. Rose Poli disse: em 09.08.2016

    Oi Gabriela.. adoro demais seu blog.. Sigo em todas as redes.. vc e uma super mãe.. Maezona.. Tento fazer tb o melhor para meus dois filhos, porem o mais novo me identifiquei com Pedro.. Ele tem 2 anos e 5 meses e so fala Pa e ma.. mais nada.. Passamos pelo otorrino esta tb todo entupido.. Estamos realizando os exames para verificar se ha perda auditiva.. Ja que para o Autismo ele tb esta fora.. Nossa…… mas como e dificill conviver com essa agustia de não saber o que fazer.. estou aguardando dos resultados.. um beijao pra vc.. otimo blog.. Parabéns

    1. Gabriela Gama respondeu: em 09.08.2016

      Rose, fique tranquila, ouvido é dificil de diagnosticar, mas depois que vai pra fase dos exames é mais tranquilo! Boa sorte 🙂

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