Deixe seu filho caminhar

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Deixe seu filho caminharNa sala de espera da oftalmo pediatra havia um casal de gêmeos junto de sua mãe e de uma tia. A menina usava um óculos de graduação alta que parecia aquelas lentes de aumento. Junto dela tinha uma bengala, usada para auxilia-la em sua locomoção. O irmão não utilizava óculos, mas estava sentado numa cadeira de rodas cheia de recursos para ajuda-lo a ficar devidamente acomodado.

A médica estava um pouco atrasada e enquanto o Pedro se distraía com os brinquedos disponíveis no consultório, eu não conseguia parar de pensar no quão difícil devia ser a vida daquela mãe. Ela tinha um ar triste e as rugas no rosto, apontavam seu envelhecimento precoce.

Fiquei por mais de uma hora esperando ser atendida enquanto observava aquela mãe orientar seus filhos em suas ações. A garotinha, estava procurando bonecas e algo mais que pudesse brincar. Todas as vezes que ela fazia menção de levantar, a tia se adiantava para poder facilitar a vida da menina. A mãe rapidamente segurava a tia pelo braço e dizia: deixe que ela busque o brinquedo sozinha.

Pacientemente aquela mãe orientava sua filha com simples comandos de direita, esquerda, continue, pare, abaixe-se. Poucos minutos depois, vinha a menina sentar-se ao lado da mãe para brincar. Quando ela queria algo novo, a cena se repetia. A mãe em nenhum momento se justificou para a tia e também não se levantou para ajudar a filha.

O menino de pouca mobilidade, distraía-se com alguns livros infantis. Folheava lentamente um a um sem a ajuda da mãe.

Entraram, foram atendidos, na sequencia se foram. Pedro era o próximo paciente a ser chamado. Não me contive e perguntei à medica o que havia acontecido com as crianças e porque a menina usava óculos se parecia ser cega. Ela com toda paciência do mundo, me disse que tiveram problemas no parto e faltou oxigênio para os dois, e cada um teve uma sequela por conta disso. Explicou que a menina enxergava pequenos vultos e aquele óculos com lentes parecendo de aumento, permitiam uma noção espacial melhor, já o menino tinha uma visão perfeita e fazia consulta de rotina de tempos em tempos.

Durante todo esse tempo e alguns dias depois, fiquei pensando na atitude corajosa daquela mãe, que permitia que seus filhos fizessem tudo o que conseguiam sem ajuda de ninguém. Seria tão mais fácil se a própria mãe tivesse ido buscar bonecas para aquela filha ou folheasse o livro para o irmão. Mas se a mãe fizesse isso, certamente as crianças jamais conquistariam a pouca independência que suas condições físicas permitiam.

Muito tempo depois, eu li um post da Andrea Werner, autora do Blog Lagarta Vira Pupa, mãe do querido Theo, onde ela conta 10 coisas que gostaria que as amigas soubessem. Dentre as coisas, ela assumia seu enorme medo de morrer. Afinal quem cuidaria tão bem daquele garotinho lindo e autista? Me lembrei daquela mãe, cansada, frágil e com duas crianças tão dependentes.

Todos os dias quando resolvo ajudar em algo que meu filho tem total condições de fazer sozinho ou de pelo menos tentar, eu me lembro daquela mãe. Como mãe, devemos orientar, ensinar, mas também devemos permitir que eles acertem, errem, tentem, até que consigam realizar suas tarefas sozinhos.

Que tenhamos sabedoria para ensina-los e discernimento para guia-los até que possam caminhar seguros. Que estejamos sempre disponíveis para lhes estender as mãos e ajuda-los a superar os obstáculos da vida. Que sejamos mães, que sejamos amigas, que sejamos amor!

Deixe seu filho caminhar.

7 comentários

  1. Andrea disse: em 10.09.2015

    Casa de ferreiro, espeto de pau. Eu tenho imensa dificuldade em deixar o Theo fazer as coisas sozinho. Nem colocar os sapatos sozinho ainda ele não sabe. É uma luta diária contra a pressa e o modo automático, sabe?! Obrigada pela lembrança!

    1. Gabriela Gama respondeu: em 10.09.2015

      Dea, é muito mais fácil fazermos por eles. Evitamos erros, repetições, atrasos e etc…
      Isso porque estamos sempre no automático mesmo e acabamos atropelando as etapas que devem ser superadas por eles.
      🙂

  2. Paula disse: em 13.09.2015

    Não tem como conter lágrimas. Também não há como não parar e pensar. Por vezes sou muito dura com os meninos; sei que são capazes de fazer e forço mesmo. Muitas pessoas, entre eles pai, avó, amigos chegam a me olhar torto, achar que exijo muito. Mas, se eles são Capazes e depois de muitas vezes em que tiveram crises de choro por achar que não conseguiriam, eles conseguem, será que estou tão errada? Por que a culpa, junto com o amor acompanha todas a mães em tempo integral.

    1. Gabriela Gama respondeu: em 14.09.2015

      Não devemos duvidar da capacidade dos nossos filhos. Se nós não ensinarmos com amor, a vida ensinará pela dor.
      Beijinhos!

  3. Débora disse: em 19.02.2016

    Lindo Gabriela!!
    Amando a forma com que você escreve e expõe cada etapa de aprendizado que é viver a maternidade, inclusive a dos outros. Parabéns pelo texto. E, o modo automático, de pressa e querer fazer pelos filhos é realmente ruim. Tales se veste sozinho se eu deixar. Ou tira a roupa. Mas tenho percebido que as vezes eu o ajudo por não entender o tempo dele.

  4. Nelson disse: em 23.12.2016

    Muito bom o post, vou mostrar pra minha esposa!

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